Tipo: Artigo
Autor: Tau Hanu
Licença: Creative_commons
Há séculos, filósofos, místicos e adeptos da Grande Obra buscam compreender os mistérios mais profundos do universo, e dentre estes um em particular capturou a atenção dos maiores expoentes do ocultismo moderno: Babalon, a entidade divina que permeia a cosmologia de Thelema e representa uma das potências primordiais da existência, e cuja existência somente se tornou conhecida após uma complexa correlação de visões extáticas, rituais audaciosos e interpretações poéticas que continua evoluindo até hoje.
Se Thelema teve sua Pedra Fundamental no Livro da Lei, recebido por Aleister Crowley em 1904, foi somente em "A Visão e a Voz" (Liber 418), publicada originalmente em 1911 como suplemento especial de "The Equinox", que Babalon foi assim apresentada ao Mundo. "A Visão e a Voz" narra a jornada mística de Crowley pela exploração dos 30 Aethyrs Enochianos, em uma série de experimentos que ocorrem em dois momentos bem distintos: primeiro em 1900, durante sua estadia no México, onde recebeu o Grau 33 da Maçonaria e fundou a Light Of Invisible Lamp, e depois em 1909, quando ele estava no deserto da Argélia acompanhado do poeta Victor Benjamin Neuburg. Tamanho o poder das palavras nesse livro que Crowley considerava "A Visão e a Voz" o segundo volume mais importante dentro de Thelema, perdendo apenas para o próprio "Livro da Lei".
Ao longo da obra, Crowley descreve Babalon sob múltiplas facetas, às vezes calorosa e magneticamente atraente, às vezes aterradora e sublime em sua revelação do inefável. Um dos pontos mais importante acontece no terceiro Aethyr, quando Crowley recebe a revelação de que Babalon e Chaos funcionam como as sízigia dos antigos sistemas gnósticos, onde um é potência e o outro é forma, e mais que Babalon era muito mais do que um nome, era o segredo oculto de Nuit, aquela que representa a totalidade de tudo, o infinito estrelado que contém todas as possibilidades. Ao mesmo tempo em que reside na base material do mundo, Babalon também reside além do abismo da dualidade e apresenta-se como um elemento vital para a existência de qualquer adepto que busque travessar o Abismo e alcançar o título de Mestre do Templo. Como escrito no Credo Gnóstico de Liber XV: "Eu creio em uma Terra, a Mãe de todos nós, e em um Ventre no qual todos os Homens são gerados, e onde eles descansarão, Mistério do Mistério, em Seu nome, BABALON". Essas palavras ressoam como verdade sagrada para todos aqueles que reconhecem a importância da força escarlate na criação e na transmutação durante a jornada.
Um dos aspectos mais particulares e verdadeiramente mágicos de "A Visão e a Voz" é o relato sobre o recebimento do mantra de Babalon, no idioma Batílico, cujo nome provavelmente é derivado do termo grego "bathys", que significa "profundo" ou "abissal", evocando as qualidades misteriosas e abissais da visão de Babalon e suas conexões com as profundezas do ser cósmico. "Batílico" também remete às pantomimas gregas e romanas, naqueles tempos em que atores usavam falas inventadas ou estilizadas para criar atmosferas rituais de grande impacto teatral.
Não há, na história conhecida da humanidade, qualquer registro de uma civilização ou tradição que tenha utilizado esse idioma antes de Crowley recebê-lo em sua visão. Mas afinal, é exatamente assim que a magia funciona, através da linguagem simbólica que transcende o significado literal e toca o cerne da realidade espiritual. Esse mantra teria sido ditado pelo anjo "Sappho-Calypso", um nome unifica Safo, a famosa poetisa grega da Antiguidade, conhecida por sua poesia lírica de amor e desejo direcionada às mulheres, com Calipso, a ninfa mitológica que manteve Odisseu preso em sua ilha durante sete anos na Odisseia de Homero. A combinação desses dois arquétipos femininos revela a natureza dual de Babalon: simultaneamente a sedutora que nos prende ao material e a musa que nos eleva ao espiritual.
Aqui está o mantra em sua forma original, tal como Crowley o recebeu:
"Omari tessala marax, tessala dodi phornepax. amri radara poliax armana piliu. amri radara piliu son'; mari narya barbiton madara anaphax sarpedon andala hriliu."
Crowley, fiel ao seu estilo característico e à sua maestria cabalística, forneceu uma tradução poética desse mantra que é, digamos, bem explícita e provocadora:
"Eu sou a prostituta que sacode a Morte. Este abalo dá a paz da luxúria saciada. A imortalidade jorra de meu crânio, E música da minha vulva. A imortalidade jorra da minha vulva também, Pois minha prostituição é um perfume doce como um instrumento de sete cordas, Brincou para Deus, o Invisível, o governante de tudo, Isso vai dando o grito estridente do orgasmo."
Porém, é precisamente neste ponto que a natureza não-dogmática de Thelema se revela. Thelema não é uma religião de verdades seladas, mas é um caminho vivo de evolução espiritual onde cada adepto é responsável por sua própria interpretação da Verdade. Se Crowley foi um visionário, nossa obrigação não é simplesmente repetir suas palavras, mas cumprir o mandato de evoluir além delas, aplicando nossa sabedoria com inteligência contemporânea e precisão simbólica apropriada ao nosso tempo. Uma interpretação alternativ, que, talvez mais sutil, mas igualmente poderosa, seria:
"Eu sou a sedutora que desafia a Morte. Este desafio traz a Paz do Desejo Saciado. A imortalidade emerge do meu crânio, E música do meu íntimo. A imortalidade também emerge do meu íntimo, Pois minha sedução é uma fragrância doce, como um instrumento de sete cordas, Tocado em reverência ao Invisível, o Todo-Poderoso, Que percorre, proferindo o grito arrebatador do êxtase."
Babalon é aquela que nos atrai para além do abismo e nos puxa através da travessia que leva ao Abismo, sendo assim a Sedutora. O "crânio" é um símbolo clássico em rituais mágicos e na Cabala, representando a sabedoria e a iluminação da consciência, enquanto que nosso "íntimo", seja ele físico, emocional ou espiritual, é o portal através do qual passamos tanto ao nascer quanto ao renascer magicamente. E o "êxtase" nada mais é do que a própria intensidade daquela experiência mística e transformadora que buscamos através da prática constante da Grande Obra.
No contexto thelêmico, o idioma Batílico funciona como um recurso simbólico e esotérico verdadeiramente poderoso como linguagem mágica para comunicar-se com os planos superiores, embora exista uma carência nele no sentido de termos uma gramática e regras tão claras e definidas como as que temos no Enochiano por exemplo. O mantra parece ter sido construído para despertar mistério e estranhamento necessário à magia, com padrões fonéticos que sugerem uma estrutura intencional e cabalística, ainda que não sigam as regras gramaticais que estamos acostumados. A abordagem de Crowley na tradução mistura intuição poética com análise cabalística profunda, privilegiando associações simbólicas em vez de significados literais puros. Para qualquer adepto sincero, essa abordagem revela a verdadeira natureza da magia sexual e das práticas enochiano-cabalísticas que formam o coração de Thelema.
Se Crowley foi o visionário que revelou Babalon nas profundezas dos Aethyrs, foi Jack Parsons quem elevou a compreensão e a adoração a um novo patamar de realização prática e revolucionária. Nascido como Marvel Whiteside Parsons, esse sujeito era uma combinação improvável: cientista de foguetes respeitado e adepto dedicado, tocado pela graça de Babalon, trabalhou em um experimento mágico que muitos consideram outro ponto importante e relevante da história de Thelema no século XX.
O Babalon Working foi um experimento mágico verdadeiramente ambicioso realizado entre 4 de janeiro e 4 de março de 1946, com um objetivo claro e revolucionário: invocar e manifestar Babalon na Terra, estabelecendo um contrapeso à força de Hórus. Para ele, apenas através da presença ativa e consciente de Babalon seria possível restaurar o equilíbrio espiritual necessário para a evolução da consciência humana.
O experimento era sofisticado, ritualmente denso e absolutamente corajoso em sua ambição. Parsons, com apoio de seu parceiro mágico L. Ron Hubbard, realizavam rituais diários extensos, utilizando as Tabelas Enoquianas de Dee, invocações de entidades elementais, e preparações meticulosas de instrumentos mágicos, pentáculos carregados com energia, sigilos desenhados com precisão cabalística, talismãs cuidadosamente elaborados. A atmosfera ritual era intensificada por mantras, recitações de nomes de poder e gestos simbólicos cuidadosamente executados. Os diários de Parsons documentam não apenas as operações mágicas técnicas, mas também os efeitos físicos e espirituais, com visões arrebatadoras e percepções místicas que tocaram o próprio tecido da realidade.
O clímax do experimento foi a recepção do Liber 49, o Livro de Babalon, texto que Parsons considerava nada menos que o quarto capítulo do Livro da Lei e uma mensagem direta de Babalon para a humanidade moderna, com instruções mágicas, profecias e orientações para a busca pela união consciente com o divino, propondo a superação de velhos paradigmas religiosos e dogmáticos, abrindo caminho para novas formas de consciência e expressão da Verdadeira Vontade.
Parsons entendia Babalon como a encarnação viva da liberdade sexual transcendente, da autonomia feminina sagrada e do poder alquímico transformador, basicamente o símbolo encarnado do desafio revolucionário aos dogmas tradicionais que aprisionam a consciência humana. Seu trabalho influenciou o entendimento vigente desde então, pois complementam e expandem Thelema e mostram esta como sendo algo para além de um simples trabalho elaborado por Crowley.
Infelizmente, Parsons morreu tragicamente em 1952 em um acidente com produtos químicos relacionados a seu trabalho com foguetes, uma morte que muitos veem como tragicamente simbólica de um adepto que voou demasiado alto em sua busca pela transcendência. Mas sua contribuição para a compreensão de Babalon permanece viva e vibrante, mostrando de forma inequívoca que ela representa uma força vital primordial e ilimitada que continua inspirando e transformando estudiosos dedicados do ocultismo e da magia sexual.
O que começou com as visões de Crowley no deserto e continuou com os rituais audaciosos de Parsons na Califórnia evoluiu para algo muito maior e mais abrangente. Outros intérpretes buscaram identificar Babalon na 6ª Chamada Enochiana transmitida a Dee e Kelley, no texto gnóstico antigo Trovão, Mente Perfeita, e até mesmo em correlações cabalísticas profundas entre Sophia, aquela sabedoria divina dos antigos, e Babalon como expressões diferentes da mesma realidade espiritual. O simbolismo de Babalon permeia camadas profundas da tradição esotérica ocidental, conectando a magia enochiana, a cabala, a gnose e as práticas thelêmicas em uma tapeçaria coerente de trabalho mágico.
Foi assim que através de Crowley e Parsons Babalon se estabeleceu como muito mais que um nome místico, pois ela se tornou um símbolo vivo de transcendência, liberdade incontestável e transformação espiritual revolucionária que continua ressoando poderosamente no ocultismo contemporâneo e na prática de todo adepto sincero. O Babalon Working permanece como um dos experimentos mágicos mais estudados, debatidos e praticados, servindo como referência suprema para aqueles que buscam compreender profundamente a dinâmica entre as forças cósmicas deste novo Aeon, a natureza da magia sexual, a travessia do Abismo e o potencial emancipador genuíno da Grande Obra.
Babalon mostra como o sagrado e o profano, o místico e o material, o divino e o humano podem se encontrar em um ponto de interseção mágica absoluta. Para qualquer verdadeiro thelemita que dedicou sua vida à Verdadeira Vontade, compreender Babalon é compreender a si mesmo e a natureza dual da divindade, uma convocação viva para que cada adepto encontre sua própria conexão com a Mulher Escarlate, a Mãe das Abominações, a Rainha do Abismo, e realize através dessa conexão a Grande Obra que é sua razão de ser. A influência de Babalon continua expandindo-se de formas que Crowley e Parsons talvez nunca tivessem completamente imaginado, penetrando cada vez mais profundamente no coração de qualquer verdadeira prática mágica que busque liberdade, transformação e iluminação genuína, pois Babalon é Thelema.
Escrito por Tau Hanu
Originalmente publicado na Revista 777 - Ano VIII Vol. 33 http://tiny.cc/777-34